Não tenho
motivo aparente pra me levantar hoje. Só de ser meu aniversário, mas tirando
isso, não tenho nada além do aniversário. Não tenho emprego, não tenho amigos
próximos, nem familiares. A não ser meus pais, só que nunca mais falei com eles
e eles simplesmente não me ligam também. Nem um cachorro ou um peixe pra me
olhar de manhã e pensar “Caralho, tenho que alimentar ele/ela”. Queria alguém
pra me motivar a sair daqui dessa cama, olhar lá pra fora e dizer “Olha lá. Tá
vendo esse horizonte aí? É seu. Não desperdiça. Eu confio em ti. Eu te amo.”
Mas eu olho no outro lado da cama e está lá, intocado. Até por mim mesmo. Fui
acostumado a dormir em cama de solteiro. Aluguei um apartamento mobiliado e
tive a surpresa da cama ser de casal. Espaço demais pra quem não sai de um
cômodo.
Estou
definhando. Minhas costelas aparecem quando me sento na beira da cama e me vejo
no espelho da penteadeira. Esse sou eu. Morrendo aos poucos numa cama onde
outras pessoas foram mais felizes, talvez. Talvez alguém tenha engravidado
aqui. Eu não me importo, me importaria se fizessem isso enquanto estou aqui. Aí
sim seria estranho. Queria alguém pelo menos pra me dar três tapinhas na costa
e dizer que eu fiz um bom trabalho. Mas eu primeiro teria que fazer algum trabalho.
O máximo que faço de virar o travesseiro porque o lado que eu dormi está sujo
ou babado. O cheiro é insuportável. Aí eu viro o travesseiro e fica tudo bem
até o outro dia. Então eu troco pelo que está do lado intacto da minha cama
gigante e ficará tudo bem por mais uns dois dias. Então eu durmo e tudo fica
limpo aqui em casa. Não entendo porque disso acontecer. Acho que Deus tem um
anjo da guarda só pra trocar minha roupa de cama.
A maior parte
do meu tempo eu fico olhando para o teto e imaginando quem mora acima de mim.
Se é uma família daquelas de comercial de margarina ou daquelas que aparecem em
programas de auditório pra resolver os problemas delas em uma hora de programa
com uma plateia julgando-a e julgando os integrantes da mesma. Fecha a cortina
e eles continuam a brigar. O tempo todo parece mais que eu estou dormindo ou um
num estado de semiconsciência que não acaba nunca. Ou outra doença patológica.
Eu estudei isso no curso de Medicina. Me ensinaram tão pouco que eu comecei a
pesquisar por fora as doenças. Fazia prescrição de remédios pra mim mesmo
testando os efeitos dos remédios tarja-preta. Era divertido até que meus pais
descobriram e me largaram no mundo. Aluguei isso aqui antes de perder todo o
dinheiro. Uma noite dessas eu quis me matar, mas não consegui. Sou muito fraco
pra essas coisas, sabe? Saudade da voz da minha mãe.
- Quanto tempo
ele vai ficar assim?
- Ele entrou
em coma induzido por ele mesmo. Só Deus sabe.
por Wésley D. D. Menezes
P.S.: Desculpa não ter postado semana passada.
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