segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cama



Não tenho motivo aparente pra me levantar hoje. Só de ser meu aniversário, mas tirando isso, não tenho nada além do aniversário. Não tenho emprego, não tenho amigos próximos, nem familiares. A não ser meus pais, só que nunca mais falei com eles e eles simplesmente não me ligam também. Nem um cachorro ou um peixe pra me olhar de manhã e pensar “Caralho, tenho que alimentar ele/ela”. Queria alguém pra me motivar a sair daqui dessa cama, olhar lá pra fora e dizer “Olha lá. Tá vendo esse horizonte aí? É seu. Não desperdiça. Eu confio em ti. Eu te amo.” Mas eu olho no outro lado da cama e está lá, intocado. Até por mim mesmo. Fui acostumado a dormir em cama de solteiro. Aluguei um apartamento mobiliado e tive a surpresa da cama ser de casal. Espaço demais pra quem não sai de um cômodo.


Estou definhando. Minhas costelas aparecem quando me sento na beira da cama e me vejo no espelho da penteadeira. Esse sou eu. Morrendo aos poucos numa cama onde outras pessoas foram mais felizes, talvez. Talvez alguém tenha engravidado aqui. Eu não me importo, me importaria se fizessem isso enquanto estou aqui. Aí sim seria estranho. Queria alguém pelo menos pra me dar três tapinhas na costa e dizer que eu fiz um bom trabalho. Mas eu primeiro teria que fazer algum trabalho. O máximo que faço de virar o travesseiro porque o lado que eu dormi está sujo ou babado. O cheiro é insuportável. Aí eu viro o travesseiro e fica tudo bem até o outro dia. Então eu troco pelo que está do lado intacto da minha cama gigante e ficará tudo bem por mais uns dois dias. Então eu durmo e tudo fica limpo aqui em casa. Não entendo porque disso acontecer. Acho que Deus tem um anjo da guarda só pra trocar minha roupa de cama.
A maior parte do meu tempo eu fico olhando para o teto e imaginando quem mora acima de mim. Se é uma família daquelas de comercial de margarina ou daquelas que aparecem em programas de auditório pra resolver os problemas delas em uma hora de programa com uma plateia julgando-a e julgando os integrantes da mesma. Fecha a cortina e eles continuam a brigar. O tempo todo parece mais que eu estou dormindo ou um num estado de semiconsciência que não acaba nunca. Ou outra doença patológica. Eu estudei isso no curso de Medicina. Me ensinaram tão pouco que eu comecei a pesquisar por fora as doenças. Fazia prescrição de remédios pra mim mesmo testando os efeitos dos remédios tarja-preta. Era divertido até que meus pais descobriram e me largaram no mundo. Aluguei isso aqui antes de perder todo o dinheiro. Uma noite dessas eu quis me matar, mas não consegui. Sou muito fraco pra essas coisas, sabe? Saudade da voz da minha mãe.
- Quanto tempo ele vai ficar assim?
- Ele entrou em coma induzido por ele mesmo. Só Deus sabe.


por Wésley D. D. Menezes 



P.S.: Desculpa não ter postado semana passada. 

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