terça-feira, 30 de outubro de 2012

Beco sem saída – Parte Um



Pelo sangue que vi no chão percebi que ali seria seu sepulcro na Terra. O tiro deve ter perfurado o coração ou algo do tipo. Não entendo muito de anatomia humana, nem de sua natureza. Ele não tinha como desviar. Ouço seus sons de dor vindo de trás de um saco de lixo no fundo do beco. Ando devagar ao encontro do cadáver. Fui bastante ferido também. Acho que morro aqui hoje finalmente do lado do meu melhor amigo. Obrigado Deus por mais um dia aqui, obrigado mesmo, sem ironias. Eu tinha menos que dois meses de vida e Você me permitiu viver três vezes isso. Só não queria que acabasse comigo jogado no meio dos camburões de lixo. Não tinha como evitar não é? Tudo até agora faz parte de um plano maior.

Hoje acordei pensando no que iria fazer amanhã. Sempre faço isso. Meu médico me disse que era bom, pois é alguma coisa positiva dentro de mim que se canalizava para o tumor o curando. Ou foi a conselheira? Ou o meu porteiro? Nem sei mais. Devem ter me dito isso há um bom tempo já. Doença de Hodgin me pegou quando confundi um caroço no pescoço com um inchaço provocado pelo violino. Queria ter ido ao médico antes de tentar massagear durante uma semana todo dia por três horas. Uma hora de manhã, uma a tarde e outra a noite.  Acabei indo ao médico na semana seguinte, mas por conta do torcicolo. Ganhei de brinde uma doença em estágio terminal. Eu poderia ter me salvado se não fosse hereditário na minha família, e eu não tivesse massageado aquela porra de nó no pescoço. A inflamação que provoquei fazendo a massagem acabou piorando a situação e fazendo com que as células cancerosas chegassem por todo o meu corpo. Fiquei mais perplexo depois que os exames vieram e a biópsia disse que eu tinha uns três meses pra fazer tudo que eu quisesse. Depois disso Deus me levaria em seus braços e seria mais um anjo entre tantos que cuidam das pessoas aqui na Terra. Não podia ser verdade.
Meus pais me levaram pra casa tentando passar o pouco tempo que ainda tinham comigo. Mas eles eram ocupados. Tinham uma rotina que mesmo eu quando não sabia que era um defunto ambulante nunca conseguiria seguir. Todo dia as cinco da manhã eles caminhavam por duas horas, depois café, depois cada para o seu lado com bingo, bocha. Meio dia almoço juntos, uma hora de sexo, ás duas da tarde já estavam na rua novamente na casa dos poucos amigos que ainda estavam vivos. As seis em casa novamente para o jantar, depois filme ou jornal, mais uma hora de sexo e dormiam. Acompanhei tudo sentado no sofá olhando meu reflexo nos retratos de família. Até que um dia meu pai me apresentou aquele que seria o pedaço de carne morto-vivo que está em meus braços agora. Olhei de relance para ele e sentou-se ao meu lado no sofá.

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