Pelo sangue
que vi no chão percebi que ali seria seu sepulcro na Terra. O tiro deve ter
perfurado o coração ou algo do tipo. Não entendo muito de anatomia humana, nem
de sua natureza. Ele não tinha como desviar. Ouço seus sons de dor vindo de trás
de um saco de lixo no fundo do beco. Ando devagar ao encontro do cadáver. Fui
bastante ferido também. Acho que morro aqui hoje finalmente do lado do meu melhor
amigo. Obrigado Deus por mais um dia aqui, obrigado mesmo, sem ironias. Eu
tinha menos que dois meses de vida e Você me permitiu viver três vezes isso. Só
não queria que acabasse comigo jogado no meio dos camburões de lixo. Não tinha
como evitar não é? Tudo até agora faz parte de um plano maior.
Hoje acordei
pensando no que iria fazer amanhã. Sempre faço isso. Meu médico me disse que era
bom, pois é alguma coisa positiva dentro de mim que se canalizava para o
tumor o curando. Ou foi a conselheira? Ou o meu porteiro? Nem sei mais. Devem
ter me dito isso há um bom tempo já. Doença de Hodgin me pegou quando confundi
um caroço no pescoço com um inchaço provocado pelo violino. Queria ter ido ao
médico antes de tentar massagear durante uma semana todo dia por três horas. Uma
hora de manhã, uma a tarde e outra a noite.
Acabei indo ao médico na semana seguinte, mas por conta do torcicolo.
Ganhei de brinde uma doença em estágio terminal. Eu poderia ter me salvado se
não fosse hereditário na minha família, e eu não tivesse massageado aquela
porra de nó no pescoço. A inflamação que provoquei fazendo a massagem acabou
piorando a situação e fazendo com que as células cancerosas chegassem por todo
o meu corpo. Fiquei mais perplexo depois que os exames vieram e a biópsia disse
que eu tinha uns três meses pra fazer tudo que eu quisesse. Depois disso Deus
me levaria em seus braços e seria mais um anjo entre tantos que cuidam das
pessoas aqui na Terra. Não podia ser verdade.
Meus pais me
levaram pra casa tentando passar o pouco tempo que ainda tinham comigo. Mas
eles eram ocupados. Tinham uma rotina que mesmo eu quando não sabia que era um
defunto ambulante nunca conseguiria seguir. Todo dia as cinco da manhã eles
caminhavam por duas horas, depois café, depois cada para o seu lado com bingo,
bocha. Meio dia almoço juntos, uma hora de sexo, ás duas da tarde já estavam na
rua novamente na casa dos poucos amigos que ainda estavam vivos. As seis em
casa novamente para o jantar, depois filme ou jornal, mais uma hora de sexo e
dormiam. Acompanhei tudo sentado no sofá olhando meu reflexo nos retratos de
família. Até que um dia meu pai me apresentou aquele que seria o pedaço de
carne morto-vivo que está em meus braços agora. Olhei de relance para ele e
sentou-se ao meu lado no sofá.
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