quarta-feira, 26 de setembro de 2012

No consultório


Nem lembro mais o porquê de procurar uma psicóloga. Ela só fica ali sentada me julgando. Falando que eu tenho que me mostrar para o mundo e que eu não devo ter medo dele. Eu fiquei assim pelo falo de ter medo dele. De tudo que eu vi de errado, dos homens que estupravam suas próprias esposas porque elas não queriam fazer sexo com eles bêbados. Vi crianças sufocando outras por causa de brinquedos. Velhinhas atacando umas as outras por uma fruta mais madura. Esse tipo de coisa que a gente vê na rua, faz um barulho com a boca em tom de desaprovação e continua olhando o jornal ou o livro ou encarando a nuca de quem está a nossa frente no ônibus.

Ela olha para o relógio enquanto o silêncio reina na sala. Eu gosto daqui, é mais limpo que a sala de espera, tem vários livros de psicologia e uns de mitologia. Acho que ela se interessa por essas coisas de deuses. Eu virei ateu pelo mesmo motivo que alguns viram vegans: achei que tinha algo de errado e resolvi abolir Deus da minha vida. Mas acho que ele não quis sair da minha, então de vez em quando me pego fazendo o sinal da cruz antes de dormir. Fazia isso quando morava com meus pais. Eu sinto saudades deles, mesmo eles sendo os monstros que me fizeram vir até aqui gastar dinheiro com uma hora vazia em que posso sentar em um sofá de couro macio.  Talvez eu devesse dizer isso pra psicóloga, mas eu achei melhor não, vai que ela inventa de me obrigar a fazer mais sessões, mais dinheiro meu jogado fora. É assim que eles te enganam. “Venha, vamos fazer uma análise da sua mente” querendo dizer “Vem, me deixa arrancar cada trocado que você tem pra ficar olhando sua cara de merda enquanto penso no que vou comer no jantar que terei com meu amante daqui a pouco enquanto meu marido fode a secretária dele”. A vida dela deve ser mais complexa e triste que a minha.
Bom, ainda tenho dez minutos de sessão, acho melhor começar a falar alguma coisa com ela. “Oi, meu nome é Fulano, tenho uns problemas mal resolvidos com meu passado e gostaria que você me desse uns conselhos pra ver se melhoro ou me passe alguns remédios pra eu conseguir dormir a noite porque, sinceramente, eu não durmo há uma semana e estou começando a ficar irritado com qualquer coisa.” Seria um bom começo de conversa. “Bom”, ela fala, “nossa sessão está terminada por hoje. Te vejo semana que vem?”. Só aceno a cabeça conversando e ela me acompanha até a porta. Todo mundo aqui na sala de espera está evitando olhar uma para o outro. O medo de julgar e ser julgado empesteia o ambiente. Queria que a psicóloga me respondesse por que do meu desejo incessante de vigiá-la e querer estripa-la para ver como ela é por dentro. Talvez isso me ajudasse um pouco.




Por Wésley D. D. Menezes

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