Bateu com
tanta força na tecla enter que quase não ouviu os sinos da igreja indicando que
eram sete da manhã e estava atrasado para sair de casa. Ele nem queria mais ver
o computador da frente, então apertou o botão desligar e foi embora fazendo
vento por onde passava e derrubando as folhas em branco nas quais ele poderia
ter feito belas imagens e publicado em alguma revista de arte moderna.
A entrevista
era às sete e meia, se ele tivesse sorte o ônibus correria entre os carros e se
tivesse muita, mas muita sorte mesmo, o ônibus teria um par de hélices no teto
e ele iria chegar à empresa em menos de cinco minutos. Não foi o caso. Perdeu
dois ônibus por estarem lotados e com passageiros pendurados na porta. Quando
se aventurou a subir em um, uma senhora que parecia mais perdida que ele passou
na sua frente. Ele pensou em xingar, espernear, mas não ia adiantar de nada. No
quarto ônibus conseguiu subir com sucesso. Passando entre os passageiros que
ainda ficavam antes da catraca esperando que
ali tivessem mais sossego do que do outro lado, a qual parecia muito com o
inferno, só que com caras inchadas de sono. Aproveitou o vácuo criado por uma
senhora que deixava seu posto e passou como se besuntado em manteiga dando com
os quadris na catraca. O cobrador com cara de poucos amigos ficou esperando ele
tirar o dinheiro do bolso. Eis que sua pressão cai por alguns segundos:
esqueceu a carteira em cima da escrivaninha, entre o maço de cigarros e do
controle remoto. Já estava a cinco quadras de casa, ia ficar difícil chegar a
tempo da entrevista, mas tentou. O motorista resmungou, mas parecia entender o
sentimento de culpa do rapaz que pareceu um foguete quando a porta da frente se
abriu.
Ele correu as
cinco quadras em exatos seis minutos e dezoito segundos, o deixando com apenas
quinze minutos para chegar à entrevista e ainda conseguir o emprego de auxiliar
de escritório. Não ia pagar tanto, e nem ia fazer o que queria, mas pagava as
contas e foda-se o resto. Tomou folego durante dois minutos, abriu a geladeira
e bebeu água gelada. Tão gelada que perdeu mais um minuto aguentando a dor que
o gelado produzira no céu da boca. Olhou rápido para o computador e se
perguntou: “Por que não?”. Ligou-o e esperou a tela de boas vindas sair. Olhou
para ver se a internet continuava conectada: ele roubava o wi-fi do vizinho que
sabia, mas deixava, pois não lhe incomodava. Abriu na página do e-mail e
digitou a senha. Errou duas vezes antes de conseguir acessar. Talvez a corrida
tenha afetado seus nervos. Olhou pela caixa de entrada toda e nada. Lembrou-se
do spam e lá estava a mensagem que queria. O teclado estava com a tecla do
enter solta, mas ainda funcionava. Apertou-a e leu em voz alta o que dizia o
e-mail.
“Sim, ainda te
amo muito. Saudade.”
Escrito por: Wésley
D. D. Menezes
Nenhum comentário:
Postar um comentário